HISTÓRIA, CRÍTICA E FICÇÃO NUMA PROPOSTA DE LEITURA HISTORIOGRÁFICA DA TRADUÇÃO NA AMÉRICA LATINA: REFLEXÕES A PARTIR DE UM ESTUDO DOS CONTEXTOS BRASILEIRO E ARGENTINO
Adriana S. Pagano - UFMG
O final da década de setenta, como a pesquisadora Else Vieira assinala, representou, no âmbito dos Estudos da Tradução, um momento em que formulações advindas da teoria literária, da semiótica e das teorias críticas começaram a subsidiar o pensamento sobre os processos tradutórios, contribuindo para que se ampliassem as unidades operacionais tradicionais – palavra e texto – “para a macro-estrutura da História e da Cultura, incorporando-se, ainda, o papel do leitor no processo” (Vieira, 1996b. p.105). Três teorias em particular foram férteis nos Estudos da Tradução: a Teoria dos Poli-Sistemas (Even-Zohar, 1979), a Teoria da Recepção (Jauss e Iser em Jauss, 1979) e a Teoria das Reescritas (Lefevere 1992). Suas contribuições são assim sintetizadas por Vieira (1996b. p.108):
A potencialidade de se contemplar a historicidade da tradução a partir de Jauss, a equilibrada consideração do texto, produtor e leitor em Iser, uma base teórica para se trabalhar as relações entre o sistema da literatura traduzida com a literatura receptora em Even-Zohar e Toury, a interação da tradução com a cultura e suas estruturas de poder em Lefevere revelaram ser as contribuições desses teóricos válidas e necessárias para os Estudos da Tradução.
A consideração da História e do circuito de produção e recepção do texto traduzido representou uma abertura para a contextualização da tradução, isto é, para se considerar a que expectativas responde o texto traduzido e que respostas, por sua vez, ele gera nos receptores que irão incorporá-lo no novo sistema literário em que se insere. Nesse sentido, o conceito de literatura como sistema que interage com outros sistemas (social, político, econômico) é um conceito chave dessas abordagens. A teoria das reescritas de Lefevere (1992) revelou-se de especial interesse, uma vez que ela contempla aspectos adicionais da contextualização da tradução, ao considerá-la como apenas uma dentre outras atividades de reescrita existentes. Ao lado da tradução estão, assim, a revisão, a crítica, a historiografia, a antologia, a compilação e as diversas possibilidades de transposição para outros sistemas semióticos, tais como cinema, televisão, teatro, e outros. A teoria de Lefevere focaliza, ainda, o marco poético-ideológico em que estão inseridos os textos reescritos e os sujeitos que estão envolvidos nos processos de reescrita, isto é, tradutores, adaptadores, revisores, historiógrafos e compiladores.
Apoiando-se em alguns dos princípios da teoria dos Poli-Sistemas e das reescritas, embora expandindo seus pressupostos para uma consideração mais aprofundada do locus de enunciação do tradutor, as pesquisas de orientação cultural na década de noventa focalizam as diferenças sociais e históricas da tradução e interrogam os efeitos culturais e políticos bem como o papel que a tradução desempenha na fundação e funcionamento de movimentos e instituições sociais. Percebe-se uma forte orientação para os estudos históricos que investigam o papel da tradução na formação de identidades e os mecanismos através dos quais essa prática cria "representações de textos estrangeiros que respondem à inteligibilidade e aos interesses da cultura tradutora” (Venuti, 2000. p.337). Além de sua função comunicativa, a tradução é vista como desempenhando uma função de inscrição política. Numa linha de reflexões sobre tradução, formação da nação e identidade que responde às novas orientações nos Estudos da Tradução, as investigações nessa área, segundo Venuti (1992. p.11), se voltam ao exame de
o lugar e a prática da tradução em culturas específicas, abordando-se questões tais como quais textos estrangeiros são escolhidos para serem traduzidos e que estratégias discursivas são empregadas em sua transposição; que obras, estratégias e traduções são canonizadas ou marginalizadas e que grupos sociais se servem delas.
A historiografia da tradução apresenta-se também como meta dos Estudos da Tradução no próximo milênio, especialmente por ser sua prática uma ferramenta para a elaboração de novas teorias e percepções do ato tradutório. De fato, longe de representar uma mera compilação de obras e datas, a perspectiva historiográfica envolve uma revisão crítica do passado, que permita “traçar a genealogia do momento presente, enquanto se vasculha esse passado à procura de pontos de fuga, teorias e práticas alternativas de tradução” (Venuti, 1992. p.10).
Para levar a cabo essa revisão, além dos referenciais da Teoria dos Poli-Sistemas, a Teoria da Recepção e a Teoria das Reescritas, as pesquisas historiográficas podem utilizar-se dos subsídios teóricos dos Estudos Culturais e dos Estudos sobre a Imprensa e a História do Livro (“Studies in Print Culture and the History of the Book), área esta última que em algumas instituições acadêmicas norte-americanas já constitui uma disciplina autônoma. Os Estudos Culturais, associados a uma proposta de sociologia da cultura conforme elaborada por Williams (1992), propõem inter-relacionar os diversos sistemas de significações que compõem o sistema social e analisar as “instituições e formações culturais”, os meios de produção e os processos de reprodução da cultura, assim como sua organização. Subjacente a essa proposta, há uma definição de cultura como “modo de vida global”, que abrange não só as “atividades artísticas e intelectuais” relacionadas com “as artes e as formas de produção intelectual tradicionais, mas também todas as ‘práticas significativas’ -- desde a linguagem, passando pelas artes e filosofia, até o jornalismo, moda e publicidade”. (Williams, 1992. p.13). Assim, a tradução poderia ser abordada enquanto prática significativa e enquanto processo de produção e reprodução de outras práticas. Nesse sentido, a proposta de “convergência de interesses e métodos diversos” dos Estudos Culturais favorece uma investigação mais apropriada da contextualização da tradução.
Os Estudos sobre a Imprensa e a História do Livro também contribuem, através de suas metodologias e formulações teóricas, para melhor compreender a inserção do texto traduzido no circuito de produção e reprodução de textos através dos diversos gêneros da imprensa. São objetos de estudo “a relação entre a história material de um texto e a história de sua recepção” (Moylan & Stiles, 1996. p.7); “a indagação das fronteiras do objeto textual, explorando o literário e o extra-literário”; e “a relação entre texto e livro”, este último entendido em sua materialidade, enquanto objeto de reprodução, circulação e consumo.
Nesse ponto, a pesquisa historiográfica filia-se, também, a um setor emergente nos Estudos da Tradução -- os estudos de tradução e mídia -- , que busca teorizar a tradução enquanto processo e produto vinculados às transferências que operam na transposição de textos para diversos sistemas semióticos. A atualidade desse enfoque justifica-se, como Delabastita (1990) assinala, pelo significativo papel que a tradução desempenha na mídia, desenhando as diversas culturas e as relações entre elas. Também, Delabastita (1990. p.97) aponta, no mundo globalizado atual, “a maior parte das mensagens da mídia em circulação em algum momento passaram ou passam por algum processo de tradução”.
O campo da historiografia da tradução constitui uma área incipiente e pouco explorada dentro de uma disciplina ainda em vias de consolidação como é os Estudos da Tradução. O contexto no qual ambos esses domínios emergem e se situam e as relações interdisciplinares que estabelecem com outras áreas do conhecimento são de suma relevância para um entendimento adequado de alguns dos questionamentos que integram as discussões de pesquisadores e teóricos que atuam nesses campos. De fato, o caráter emergente da historiografia da tradução nos coloca diante de uma tarefa paradoxal. Por um lado, torna-se preciso “construir” uma história da tradução, haja vista sua inexistência ou existência fragmentada, motivada, em grande parte, pelo entendimento, prevalecente até há uma década atrás, de se tratar de uma tarefa prescindível, especialmente sob a ótica de uma consideração da tradução como processo secundário ou menor. Por outro lado, torna-se necessário “des-construir” a história e o tecido de relações no qual se visava à supressão do exercício da diferença e a tradução era concebida apenas como prática da equivalência e da identidade. Temos, assim, uma atividade dupla de construção e desconstrução, que requer que se trabalhe com os dados que a história nos fornece, submetendo-os, todavia, a uma indagação que possa ampliar o material existente e apontar para novos caminhos a serem percorridos. A metodologia de investigação requer, portanto, um exame cuidadoso. A procura de uma continuidade na história da tradução pode levar a reduções e à desconsideração daqueles cuja teoria e/ou prática constituem nós descontínuos fora do fio condutor que se está seguindo.
A constituição do corpus de estudo também apresenta problemas ao historiador da tradução, especialmente quando este adota histórias convencionais e limita seu recorte a um único tipo de documentação, desconhecendo outros elementos que operaram juntamente com a tradução no contexto estudado. Nesse sentido, o estudo historiográfico da tradução precisa adotar uma perspectiva interdisciplinar, incorporando abordagens advindas dos estudos culturais, dos estudos pós-coloniais e dos estudos sobre a imprensa e a história do livro.
É nesse sentido que gostaria de tecer algumas reflexões sobre o papel cada vez mais relevante dos estudos históricos da tradução e observar a articulação nesse campo dos estudos da tradução com os estudos culturais. À incipiencia da historiografia da tradução, soma-se, no meu estudo de caso, o caráter emergente desse tipo de estudo no âmbito latino-americano, principalmente quando se utiliza uma perspectiva comparativista como a adotada em minha análise da tradução em dois países da América Latina: Brasil e Argentina.
No contexto do trabalho de pesquisa que venho desenvolvendo nestes últimos anos (Pagano, 1994; 1996; 1997; 1998a; 1998b; 1999a; 1999b; 2000), cujo objetivo último é a construção de uma historiografia da tradução em dois países da América Latina -- Brasil e Argentina -- , o exercício da investigação da tradução no âmbito de outras industrias culturais requer uma reconstrução do momento histórico para observar-se a articulação da tradução com outras práticas culturais. Como exemplo dessa articulação, gostaria de analisar alguns dados relativos ao contexto da atividade tradutória no Brasil e na Argentina, no período de 1930 a 1950, e levantar algumas reflexões sobre a relação entre a prática tradutória e os processos de transformação social e econômica que se deram em ambos esses países naquele período. Essa análise busca ilustrar alguns dos entrelaçamentos passíveis de serem indagados pelo pesquisador no campo da historiografia da tradução.
O período de 1930 a 1950 é definido tanto na Argentina como no Brasil como um momento áureo da tradução, um período de boom tradutório sem-par em décadas posteriores. Esse fenômeno tradutório abrange não só a tradução de obras européias e norte-americanas para o espanhol e o português, mas também a tradução mútua de obras brasileiras e argentinas entre esses dois países. O contexto socio-econômico-político no qual se desenvolve a atividade tradutória está caracterizado, em ambos os países, por um processo de industrialização crescente, urbanização e surgimento de um dos meios de comunicação de massa, o rádio, que naquela época teve uma repercussão similar à que tem hoje seu sucessor a partir da década de 50: a televisão. Houve também um aumento no consumo pelas faixas da população que até então estavam excluídas do circuito comercial; um aumento do número de alfabetizados, graças a políticas de fomento à escolaridade, e um número crescente de leitores de livros e revistas populares (Rivera, 1980/86).
À diferença dos leitores eruditos ou pertencentes a uma classe social mais afluente, que geralmente tinham acesso a volumes importados ou de valor elevado, o novo público leitor só pôde aproximar-se desse novo objeto de consumo graças à acessibilidade do preço e à distribuição do produto dentro do âmbito de seu convívio cotidiano. Referimo-nos aqui às mudanças no acabamento dos livros (o papel e encadernação) e aos locais onde este passou a ser vendido, sobretudo em livrarias menos exclusivas e em bancas de jornais, ao lado de outros produtos da mídia impressa, tais como revistas e jornais.
Na realidade, o convite ao consumo não era conseqüência exclusiva do preço e da acessibilidade do livro. Estava reforçado, também, por um apelo crescente de uma necessidade de formação e qualificação, veiculada por campanhas educacionais e pelos novas possibilidades profissionais no âmbito laboral. Todavia, o novo público leitor estava aproximando-se da leitura, não só por necessidade escolar ou profissional, mas também como forma de lazer. Estava-se caracterizando, assim, uma demanda por livros de entretenimento ou ficção ligeira, de baixo custo e adquiríveis no espaço de convivência cotidiana do leitor.
A demanda por artigos de consumo tais como livros e revistas, anteriormente restritos apenas a alguns setores da sociedade, levou à necessidade de traduzir romances, folhetins, tratados, textos acadêmicos, todos eles destinados a um público que começava a vivenciar uma de suas primeiras experiências de recepção massiva de informação, sobretudo através da literatura de lazer.
Além das condições internas em cada país, fatores externos também propiciaram o boom tradutório, tanto na Argentina como no Brasil.. O relativo isolamento da América Latina após a crise mundial de 1929 e a redefinição do mapa mundial provocado pelos conflitos bélicos conduz ao que podemos denominar de virada introspectiva dos países latino-americanos: os países latino-americanos começam a dirigir sua atenção para a reflexão acerca das representações da própria identidade, concentrando-se na definição de conceitos tais como, a argentinidade, a brasilidade, a mexicanidade, etc. Esse olhar introspectivo dos países latino-americanos — movimento recorrente ao longo do século XX, geralmente em consonância com momentos de grandes mudanças em nível internacional e nacional — vê, na Argentina e no Brasil, o nascimento de empreendimentos culturais, como é o caso do surgimento de instituições, casas editoriais e grupos intelectuais que buscam repensar a cultura nacional no contexto internacional (Miceli, 1979).
No âmbito editorial, fatores tais como a Guerra Civil Espanhola, que motivou o traslado de numerosas editoras espanholas (Sudamericana, Emecé, Losada) para a Argentina (Rama, 1982; King, 1989) e a Segunda Guerra Mundial, que dificultou a importação de livros (Hallewell, 1985) e o contato da Argentina e do Brasil com as metrópoles européias, propiciaram a efervescência editorial e tradutória dessas décadas (Andrade, 1978; Martins, W., 1979; Miceli, 1979; Hallewell, 1985). Longe de operar em detrimento das publicações de escritores nacionais, a tarefa tradutória contribuiu, tanto no Brasil como na Argentina, para a consolidação do mercado do livro como um todo, incluindo a produção nacional (Hallewell, 1985), e para a formação e expansão do público leitor (Miceli, 1979). Signo do crescimento do mercado editorial nesse período é o surgimento de editoras de porte considerável, como a editora Globo, a Companhia Editora Nacional e a José Olympio, no Brasil e as editoras Sudamericana, Losada, Emecé, Claridad, e Santiago Rueda, na Argentina.
A iniciativa institucional, governamental, de expansão da educação para um setor mais amplo da população vem ao encontro da expansão das atividades editoriais e tradutórias dessas décadas, que estão acompanhadas de reflexões intensas a respeito da linguagem e de sua especificidade nacional. São célebres os questionamentos de Monteiro Lobato sobre a língua utilizada nos livros editados em Portugal e utilizados no Brasil, críticas estas também levantadas por escritores e tradutores argentinos. Em decorrência disso, tornam-se prementes, para o olhar dessas décadas, as traduções e re-traduções de textos publicados na Espanha e em Portugal para um espanhol e um português conforme o uso dessas línguas na Argentina e no Brasil. O isolamento do contexto mundial e a precariedade da legislação da época fazem também com que, tanto na Argentina como no Brasil, alguns editores da época, como Zamora da editora argentina Claridad e Henrique Bertaso e Érico Veríssimo da Globo, não pagassem direitos de autor no caso de traduções e não sofressem punições legais, uma vez que o controle dos direitos autorais era bem mais precário do que nas décadas atuais, numa situação de comunicação massiva e globalização. (Veríssimo, 1973).
Na realidade, o contexto internacional favoreceu, em grande medida, o mercado editorial argentino, que assumiu uma posição de liderança na edição de livros na América Hispânica. Com o isolamento produzido pela Segunda Guerra Mundial e a situação da Espanha, as editoras argentinas converteram-se em provedoras do mercado mundial de livros em espanhol, juntamente com México e Chile. Segundo Hallewell, o crescimento editorial no mercado de livros em espanhol teve um efeito lateral para os autores brasileiros, uma vez que “editoras agora prósperas, com ambiciosos programas para publicar obras literárias modernas traduzidas, passaram a interessar-se, como parceiras latino-americanas, na inclusão da literatura brasileira contemporânea” (Hallewell, 1985. p.405). A tradução e edição de livros de autores brasileiros em espanhol sem dúvida abria o mercado destes para outras línguas, uma vez que o espanhol era uma língua de maior difusão no mercado editorial mundial. Também foi favorecido, de certa forma, o mercado brasileiro, uma vez que condições de câmbio propiciaram, por um período de tempo, a exportação de livros brasileiros para Portugal.
O análise do contexto socio-econômico-político do período estudado precisa também contemplar algumas características do planejamento da edições de livros que realizavam as editoras da época no contexto do boom de edições e traduções demandadas pelo novo público leitor. Um aspecto de merecido destaque no trabalho das editoras de ambos os países era a criação de coleções ou séries literárias que não só organizavam e classificavam a produção das editoras, como também preparavam, de certa forma, a recepção do leitor, uma vez que este era orientado, através dessa organização, em sua leitura do texto. A atribuição dos títulos a um determinado gênero textual preparava o leitor para sua interação com o livro. A análise das coleções ou séries literárias lançadas pelas editoras brasileiras e argentinas nos permite também observar aspectos relativos à construção de um repertório de obras que eram incorporadas à produção nacional, mesmo em se tratando de traduções de obras estrangeiras.
O próprio nome das editoras revela traços de projetos editores que se desejavam com uma atuação em ampla escala ou com uma função de cunho político-pedagógico. O nome “Civilização Brasileira”, nome da filial da Companhia Editora Nacional, revela-se como parte de um projeto que percebe e apresenta o Brasil como civilização, cultura organizada e consolidada. A editora Globo também sinaliza com seu nome uma mirada ampla e internacional. A editora argentina Sudamericana, fundada por exilados espanhóis na Argentina, revela um projeto que abraça um sub-continente; já a editora argentina Claridad, filiada ao grupo Clarté, revela em seu nome um projeto de instrução e iluminação, neste caso específico de ideologia libertária e anarquista.
Os títulos das coleções, tanto na Argentina como no Brasil, também são reveladores dos desejos e projetos desse mercado em plena expansão. A maioria deles revela um desejo enciclopédico de incorporação organizada da literatura mundial, acompanhado de uma necessidade de incluir nesse repertório a literatura nacional. Essa necessidade é claramente mais acentuada no caso brasileiro, provavelmente devido à própria situação de isolamento do Brasil no contexto da América do Sul. Assim, por exemplo, a Companhia Editora Nacional publica a série Brasiliana, destinada à produção nacional, juntamente com séries de textos predominantemente traduzidos, como as coleções Paratodos, Terramarear, Biblioteca das Moças. A José Olympio lança as coleções Documentos Brasileiros e Os grandes livros brasileiros, juntamente com coleções como Rubáiyát, jóias da poesia universal ou Fogos Cruzados. A editora Martins lança uma Biblioteca Histórica brasileira e uma biblioteca de literatura brasileira ao lado da Coleção Excelsior. Já as editoras argentinas, não apresentam coleções plenamente dedicadas à literatura nacional. Existem alguns casos, como o da Sudamericana, que lança suas coleções Autores Argentinos e Sur, mas predomina a inserção da produção argentina no âmbito das coleções gerais.
As chamadas “bibliotecas” ou “coleções” que as editoras brasileiras e argentinas constróem representam uma espécie de biblioteca virtual, repertório de obras às quais se pode ter acesso, pois sua existência, mesmo que não seja física, está prevista no catálogo ou mapeamento global da editora. A idéia de se vender uma biblioteca orienta o leitor que, ciente do papel da educação como forma de mudança e ascensão social, busca possuir esse conhecimento, traduzido e organizado para ele.
A classificação das “bibliotecas” e, consequentemente, dos leitores já prevê nuanças de idade e interesse, de acordo com as novas possibilidades desse público que desperta para a leitura e tem meios materiais de concretizar a aquisição do livro. As editoras argentinas e brasileiras, em sua maioria, classificam seu público em: infantil, ao qual dirigem toda uma série de romances de aventura traduzidos; feminino, ao qual dirigem romances de amor (“Biblioteca das moças; “Menina e moça”, “Clásicos del amor”); profissional, dirigido aos profissionais liberais necessitados de conhecimentos básicos e modernos sobre suas áreas; escolar, dirigido aos partícipes do processo educacional, através do livro didático; e uma categoria mais ampla, o público em geral, a quem estão dirigidas as coleções de romances clássicos e contemporâneos, com destaque para o romance detetivesco ou policial, o romance histórico o romance de aventuras.
Na conformação das “bibliotecas “ou “séries”, é interessante notar o efeito des-historicizador da tradução. Em outras palavras, o efeito de des-contextualização do original e re-contextualização do mesmo que tem lugar a partir do momento em que o texto é traduzido para as culturas brasileira e argentina e inserido numa compartimentalização específica, como, por exemplo, em “Os Grandes Romancistas” ou “Grandes Ensaístas” ou, ainda, “Os Pensadores”. Isto pode ser observado na seleção de títulos que são traduzidos e apresentados como membros de uma determinada série ou coleção. Assim, por exemplo, na Biblioteca dos Séculos lançada pela editora Globo, estão reunidos autores extremamente variados como Montaigne, Laclos, Stendhal, Flaubert, Maupassant, Verlaine, Balzac, Platão, Shakespeare, Fielding, E. Bronte, Dickens, Nietzche e Edgard Allan Poe. As categorias “século”, “universal”, “grandes” reúnem de forma sincrônica produções pertencentes a épocas e espaços diversos.
Um gênero de grande destaque nas décadas de 30 a 50, que penetra nos mercados brasileiro e argentino através de traduções, é sem dúvida o gênero policial ou detetivesco. Longe de representar uma inserção anacrônica no contexto da época, como é o caso da apresentação de clássicos greco-latinos ou de romances ingleses do século XVIII, o romance policial ou às vezes chamado de “noire” encontrava-se à época em alta, por exemplo, nos Estados Unidos, nação à qual pertencem a maior parte dos autores traduzidos, tais como Lovecraft, Raymond Chandler, Kerouac, William Burroughs, Paul Bowles, Edgard Wallace, John Dickson Carr. Tanto na Argentina como no Brasil, são numerosas as coleções dedicadas a esse gênero: Série Negra, Coleção para Todos, Coleção Terramarear, Coleção Amarela, El Séptimo Círculo, Colección Sherlock Holmes, Misterio, etc.
Na Argentina, o gênero policial ou de suspenso também aparece em tradução em publicações folhetinescas em jornais e revistas. É o caso da Magazine Sexton Blake. Nesse país, além do romance policial, a atividade tradutória era bastante intensa nas estórias em quadrinhos, verdadeiros laboratórios de experimentação em adaptação, como é no caso das revistas argentinas Misterix, Pif-Paf, Rataplán. Uma área ainda inexplorada, tanto no caso argentino como no brasileiro, é a da tradução no cinema e nas radionovelas naquela época.
A primeira revelação da investigação historiográfica, isto é, os dados sobre o que, quando e onde se traduzia e publicava, precisa ser complementada com um estudo das práticas tradutórias específicas utilizadas naquela época em ambos os países, isto é, sobre como se traduzia e por que. Sabemos por depoimentos de Monteiro Lobato e do próprio Érico Veríssimo sobre aspectos muitos interessantes das traduções que ambos realizavam, as quais possuíam um grau de liberdade e criatividade notável para a época. Nesse sentido, as memórias e outros textos autobiográficos incorporam-se à investigação do contexto tradutório da época. Também contamos com o parecer de críticos da época, que revisam e analisam a tarefa tradutória, muitas vezes numa perspectiva cultural ampla, de enorme interesse para nossa releitura, como é o caso do crítico argentino Jorge Rivera (1980/86. p.591), que afirma:
Se analisar-mos a história da mídia “tecnológica”, como o cinema e o rádio, comprovaremos que, em sua etapa pioneira, as margens de liberdade e criatividade concedidas a escritores e artistas no reconheciam praticamente limites...
E mais especificamente em relação à prática do tradutor argentino:
Diante do que ocorre em outras indústrias culturais (a espanhola, por exemplo), nas quais o tradutor é um técnico sem muito destaque ou vôo literário, no caso argentino prevalece desde seu início a figura do escritor ou especialista com uma depurada formação cultural e literária... (Rivera, 1980/86. p.582).
Além de depoimentos de editores e tradutores da época, os quais se somam ao corpus de pesquisa historiográfico, uma análise da produção literária desse período revela, sobretudo no caso argentino, a presença de reflexões sobre a tarefa tradutória no campo da ficção. A presença da ficção como fonte de teorização de processos tradutórios vem sendo corroborada em diversos estudos da tradução em contextos tais como a América Latina, o Canadá e a Índia (Vieira, 1995/96, 1996a; Pagano, 1999b, 2000). No âmbito latino-americano, a ficção revela-se uma fonte produtiva para os estudos das formas de se conceber a tradução, sobretudo no que diz respeito a formas de elaborar a tradução como espaço de reflexões sobre identidade e processos de transferência cultural.
No contexto do apogeu editorial e tradutório das décadas de 1930 a 1950, fontes ficcionais como romances e contos de autoria de tradutores e editores ativos à época (por ex., Érico Veríssimo, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Rodolfo Walsh) fornecem dados complementares para o estudo historiográfico desse período.
História, crítica, memórias e ficção são fontes que informam uma proposta de metodologia historiográfica, visando a indagação dos efeitos culturais e políticos que a tradução desempenha nos momentos e contextos socio-culturais nos quais se constitui numa prática discursiva de marcada presença. Se a década de setenta, com os subsídios de abordagens culturais, contribuiu para a abertura de novos horizontes nos Estudos da Tradução e os anos noventa foram decisivos para um diálogo ampliado dessa disciplina com outras áreas e disciplinas afins, o novo milênio parece marcar um momento propício para abordagens históricas da tradução que consolidem essa subárea e projetem novos caminhos de indagação para um passado sempre revisitado.
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